A minha obra é uma investigação sobre a persistência do sagrado na matéria descartada. Entendo a máscara não como um esconderijo, mas como o ponto de revelação onde o ser humano, o espírito e o detrito urbano se fundem para criar uma nova ontologia. Diria ser uma pesquisa estética em um movimento contínuo de dar rosto ao invisível, utilizando o que a sociedade rejeita como a fundação de uma nova ancestralidade.
Iniciei este percurso no plano do rito, transformando o papelão, o gesso e a ráfia em Máscaras em Seres. Naquele estágio, a minha produção buscava o resíduo efêmero do carnaval carioca que eu transmutei em pele ritualística. Com o tempo, a minha investigação evoluiu para a série Seres em Máscaras. Adotei o polímero do E.V.A. e a sucata plástica, deslocando assim, o foco da função para a essência: a máscara deixou de ser um acessório para se tornar a feição definitiva de divindades afrofuturistas, imunes à decomposição do tempo.
Na maturidade da série Reinos, a madeira e o tecido surgem como ferramentas de síntese civilizatória. Se na fase Súditos a leveza decorativa do compensado sobre veludos e couros evocava uma nobreza tátil, nas séries finais o design atingiu uma precisão robótica e multicultural. Ao fundir geometrias de matriz africana com influências globais ancestrais e um design mecanicista, as peças tornaram-se totens de uma era híbrida.
Elas testemunham que a máscara, seja ela de papel, plástico ou pinus, permanece como a ferramenta suprema para organizar o caos e manifestar a identidade da 5ª Onda na modernidade.
Texto em colaboração com a Gemini